18 de agosto de 2020

A rotina de uma enfermeira durante a pandemia

Quando a pandemia do Coronavírus começou a se espalhar pelo mundo todo, muitos profissionais da saúde que trabalham em hospitais, UBS e postos de atendimento começaram a se preparar para enfrentar e combater a doença. Esses profissionais tornaram-se os soldados da linha de frente de uma batalha com um inimigo invisível, mas muitas vezes fatal. O primeiro pensamento que a enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Não-Me-Toque, Renata Silva Pietro Kraemer, teve quando descobriu que trabalharia na Unidade Sentinela de Não-Me-Toque foi de preocupação e medo. “No início eu fiquei preocupada, ansiosa e com medo, lógico. Pensava na minha exposição e, principalmente, em expor minha família. Ficava imaginando como seria atender em um panorama que parecia situação de guerra, vendo as pessoas morrendo nas mãos de profissionais de saúde, pois era isso que víamos nos noticiários. Mas eu rezei bastante e pedi para Deus me dar sabedoria e tranquilidade. Nós, enfermeiras da Secretaria, trocamos muitas angústias e preocupações, o que tem ajudado muito.”

Apesar de suas preocupações e receios, Renata manteve-se na sua missão de cuidar das pessoas. Iniciou seu trabalho na Unidade Sentinela como enfermeira, tendo como função Coordenar todas as atividades da equipe, que vão desde como vai ser feito o acolhimento, direcionamento e fluxo dos pacientes dentro da unidade, até o momento da limpeza das salas, a conferência do preenchimento dos documentos, agendamento de exames, providência de transporte caso o paciente não tenha condições ou não deva transitar e conferência do estoque de todos os insumos da unidade.

O trabalho na Unidade Sentinela precisa ser rápido e preciso para evitar ao máximo a exposição. Todo atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar que foi treinada e recebe orientações da Vigilância Epidemiológica e Sanitária do Município. Os cuidados com a contaminação são muito rígidos, por isso Renata tem uma rotina de paramentação que começa primeiro com lavagem das mãos com água e sabão e assepsia com álcool 70%. Depois, ela coloca uma roupa antes de vestir o macacão Tyvec e calça um calçado que só usa na unidade. Os equipamentos de proteção individual seguem uma ordem para evitar a contaminação: macacão, calçado, propés, dois pares de luvas, touca, máscara PFF2 e faceshield. Ela também aplica plástico filme no telefone e só retira o plástico no final do plantão.

Mas apesar de todo o treinamento e proteção, quando um paciente testa positivo para Covid-19, os medos e preocupações lá do início voltam à mente de Renata. “Quando atendo um paciente com Coronavírus existem duas situações. A minha: tensão e angústia, passa na cabeça todos os passos que fiz, se me paramentei corretamente, se não toquei nas mesmas superfícies, se não toquei no meu rosto e se fiz a assepsia. Depois me coloco no lugar do paciente: como é viver esse período isolado, distante das pessoas que ama, com o medo de transmitir para filhos, pais, família, pessoas de risco”, conta Renata.

Por isso, quando vai para casa, a enfermeira é extremante cautelosa e cuida para não levar nenhum tipo de contaminação. Ela criou uma rotina especial com a família nos dias em que trabalha na Unidade Sentinela. “A roupa que usei por baixo do macacão retiro no vestiário e coloco em uma sacola separada. Ao chegar em casa, deixo essa roupa separada, retiro toda minha roupa e calçado na garagem e vou direto para o banho.  Conseguimos nos organizar para que no dia em que trabalho na Sentinela não tenha ninguém da minha família em casa quando retorno do trabalho. Quando eles chegam, já estou “limpa”.”

Mesmo com suas rotinas e método de cuidado, Renata não consegue blindar seu lado emocional e por isso muitas vezes o atendimento ao paciente pode ser algo bem desafiador. “É desafiador estar à frente de uma doença nova, que não se sabe como ela se comporta e nem se haverá cura, tratamento ou vacinas. Mas também é desafiador o atendimento ao paciente. Lembro quando atendi um paciente jovem, que estava com sua família infectada e ele foi até a Unidade encaminhado pela vigilância epidemiológica por uma queixa bem leve. Quando perguntei dos seus familiares ele desabou, chorou muito, ele soluçava, dizia que no último mês eles só tiveram notícias ruins sobre a saúde dos familiares e que a única coisa que o deixava um pouco tranquilo era saber que sua filha pequena estava bem e não tinha nenhum sintoma. Me deu um aperto no peito, meus olhos encheram de lágrimas, deu um nó na garganta, tinha vontade de largar tudo e sair correndo abraçar o meu filho.  Como enfermeira, aprendi que temos que tentar não se desestruturar com as histórias e situações que nos deparamos. Temos que ter a cabeça no lugar para poder ajudar da melhor forma e cumprir o nosso trabalho. Mas, as vezes, não tem como, tem momentos que eu fico tocada e isso me faz refletir, pensar na minha vida, na minha saúde e na minha família. Que reclamações bobas realmente não são nada comparadas às situações que vivencio.”

A pandemia tem ensinado a todos o valor da liberdade, da família e dos relacionamentos com as pessoas, mas para Renata essa pandemia também ensinou o quanto as pequenas coisas e pequenos gestos são importantes e significativos na vida das pessoas e o quanto o seu trabalho, e de todos os profissionais da saúde, é essencial para o mundo.

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