9 de junho de 2020

Não-Me-Toque no combate ao Coronavírus

Desde o dia 17 de abril, Não-Me-Toque vem lutando contra o Coronavírus. Os três primeiros casos, hoje já curados, marcaram o início de uma nova fase no combate à doença e na criação de novos hábitos pela população.

Além dos casos locais que surgiram até então, outro fator também preocupa: o Município depende de leitos de UTI de Passo Fundo que já possuem um grande número de ocupações. “No momento, a maior preocupação da Secretaria da Saúde em relação ao Coronavírus está em proteger, principalmente, o grupo de risco, por isso tivemos que tomar várias medidas, como por exemplo: as restrições no comércio, na indústria, e o cuidado com as aglomerações. Isso tudo para que as pessoas não transmitam o vírus e ele não chegue ao grupo de risco, que são aquelas pessoas com mais de 60 anos, que têm doenças imunodepressoras, doenças crônicas, ou que são obesas. Nossa referência de leitos para Unidade de Tratamento Intensivo é Passo Fundo, que hoje está com grande parte da sua capacidade sendo utilizada. Apesar dos nossos hospitais estarem com uma capacidade baixa, eles são de complexidade limitada, nós temos condições de ficar com um paciente intubado por no máximo um dia ou talvez dois aguardando um leito, depois ele precisa ir para uma UTI e esse é o nosso problema”, explica o Secretário da Saúde de Não-Me-Toque, Marco Costa.

Para superar suas limitações, o sistema de saúde de Não-Me-Toque buscou ficar bem estruturado para atender os pacientes com covid-19. Com a saúde dividida em dois, o Poder Público conseguiu separar os atendimentos de pacientes com sintomas respiratórios das demais emergências. “Aqui nos organizamos em duas estruturas, a Unidade de Saúde do Bairro Martini, que batizamos de Unidade Sentinela e está destinada exclusivamente para atender pacientes com sintomas respiratórios, potencialmente suspeitos de ter o Coronavírus. Nesta temos uma equipe completa com médico, enfermeiros, técnicos de enfermagem, pessoal da recepção e limpeza que trabalha todos os dias, das 7h30min às 18hs. Além da Unidade Sentinela, também organizamos o atendimento hospitalar, pois como nós temos dois hospitais no Município, separamos os atendimentos, contratando um serviço de plantão e internação à parte no Hospital Notre Dame Julia Billiart para atender só pacientes com síndromes respiratórias e suspeitos de covid-19 e deixamos a emergência do Hospital Beneficência Alto Jacuí trabalhando normalmente para atender as outras demandas de saúde da população.”

Com essa nova organização de atendimento, os pacientes com suspeita de Coronavirus devem buscar o primeiro atendimento na Unidade Sentinela, lá receberão todo o cuidado e atenção e, se necessário, serão dirigidos até a unidade hospitalar. Os pacientes com casos confirmados que ficarem em isolamento domiciliar, são monitorados a cada 48 horas pela vigilância epidemiológica que entra em contato para saber como o paciente está se sentido. A vigilância epidemiológica também é responsável por monitorar os casos suspeitos e pessoas que podem ter tido contato com a doença.

Além da Unidade Sentinela, a Secretaria Municipal de Saúde também disponibilizou para a população o serviço de telemedicina, no qual as pessoas que tenham dúvida ou algum sintoma respiratório podem conversar com o médico através do telefone e ele irá orientá-los como proceder e quais cuidados tomar. Através do serviço de telemedicina é possível que o médico faça até mesmo um receituário que o paciente poderá receber em sua casa sem precisar sair do isolamento.

Uma ajuda voluntária de quem viu a doença de perto

Para estruturar o sistema de saúde de Não-Me-Toque, a Secretaria Municipal de Saúde contou com o auxílio e a experiência da cirurgiã plástica Mariana Hartmann que viu na prática a luta de médicos e equipes de saúde contra o Coronavirus. Mariana ficou 10 dias atendendo em um Hospital de São Paulo durante o início da doença. “Eu fui para São Paulo no mês de março para fazer plantão como cirurgiã plástica e foi quando começou o pico da doença na cidade. Eu assumi o plantão no domingo e estava tudo normal. Na segunda-feira já começou a aparecer os primeiros casos e na terça-feira todos os plantonistas do pronto socorro foram deslocados para atender os casos de covid-19. Atendíamos em média, a cada 12 horas, de 30 a 40 pacientes suspeitos ou confirmados com a doença. Na quinta-feira, eram três e meia da manhã eu tive uma crise de choro no meio do plantão, porque não dávamos conta de tanta demanda, nunca acabava, era muito paciente em estado grave chegando. Eu me sentia cansada, impotente, desesperada. Durante aquela semana vários colegas meus do plantão foram internados ou tiveram que ficar em isolamento porque haviam contraído a doença. O que mais me marcou naquele momento foi o sentimento de impotência que a gente tinha, eu lembro que teve uma consulta, na qual eu atendi uma mulher da minha idade com dois filhos que não tinha doença nenhuma, mas que precisou ir para UTI. Lembro que naquele momento eu me perguntei: será que Deus esqueceu de olhar para a gente agora? Porque aconteceu tão rápido com tanta gente e de uma maneira tão grave que a impressão que eu tinha era que o mundo iria desabar, que seria algo incontrolável” relembra a médica.

Mariana relata ainda que aquele momento também serviu como um choque de realidade. “Até chegar naquele momento, para mim o covid-19 parecia uma doença que estava longe, mas naquela semana quando vi as coisas acontecerem debaixo do meu nariz foi muito chocante, porque era algo que parecia tão longe mas de repente estava acontecendo ali, comigo, com meus colegas, amigos, pessoas da minha idade. Foi muito difícil passar por isso, mas também foi enriquecedor do ponto de vista médico porque eu aprendi muito, aprendi vários aspectos clínicos do paciente.”

Foi essa experiência prática que deu a Mariana o embasamento necessário para poder contribuir na organização do sistema de saúde de Não-Me-Toque. Por isso, após voltar ao Rio Grande do Sul, ela se voluntariou para ajudar no trabalho da Secretaria da Saúde. “A minha intenção em ajudar a preparar o nosso Município para receber a doença, foi porque aqui é a minha cidade, é onde a minha família mora, é onde eu nasci, onde meus amigos moram, então eu queria que a gente estivesse bem preparado. Por isso, quando cheguei procurei a Secretaria Municipal de Saúde, procurei o Secretário de Saúde, Marco Costa, e conversei com ele. Aqui já tinha um plano estratégico, então pude contribuir com mais algumas ideias pautadas na minha experiência e conseguimos elaborar um bom projeto e que ficou muito bem estruturado.”

Como tinha vivenciado a prática do atendimento a pacientes com Coronavírus, Marina teve um papel fundamental na criação dos protocolos de atendimento da cidade, bem como no treinamento da equipe responsável por atender os casos de Covid-19. A médica passou seu conhecimento a respeito da transmissão da doença, período de incubação, os sintomas, quais eram os grupos de risco, quando o paciente tinha que receber indicação para UTI, quando ele podia ser tratado em casa e os cuidados com o equipamento de proteção individual para não haver a contaminação da equipe de saúde.

Hoje a médica acredita que a cidade está muito bem estruturada para tratar os casos de Coronavírus que estão surgindo: “A gente conseguiu preparar todo o sistema, a Unidade Sentinela, a telemedicina e o plantão de isolamento respiratório no Hospital Notre Dame Júlia Billiart. A Secretaria Municipal da Saúde e a Prefeitura foram muito engajados em fazer tudo, eu fiquei bem orgulhosa de ser não-me-toquense porque eu vi que eles estavam bem dispostos a fazer o sistema funcionar. Acredito que Não-Me-Toque está muito bem estruturada, não tivemos casos graves no Munícipio, e todas as ocorrências estamos conseguindo manejar bem. De alguma maneira eu me sinto grata de ter passado essa experiência em São Paulo porque, apesar de ter sido extremante desgastante para mim, foi muito bom chegar aqui e conseguir ajudar a Secretaria da Saúde aqui de Não-Me-Toque”

Para Mariana, os desafios do Coronavírus vão além da doença e do cuidado com a saúde, envolve a economia e a política do país. Mas para a médica a lição que realmente ficará de tudo isso é aprender a apreciar mais as pequenas coisas da vida. “Acho que a grande lição de tudo isso é a gente aprender a valorizar a nossa rotina, nossas pequenas coisas, porque tem coisas que fazíamos no automático antes disso tudo acontecer, coisas que eram bobas, mas que nos foram tiradas e só agora podemos ver o quão importantes elas eram na nossa vida.”

 

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